terça-feira, 11 de setembro de 2012


Os Lotes escolhidos por Antonio voltolini e filhos:

Os lotes eram concedidos por compra, através de requerimento dos colonos, para pagamento num prazo máximo de 5 ou 6 anos. No ato de concessão, portanto, as famílias concessionárias assumiam uma dívida e recebiam um título provisório. O povoamento não foi um processo espontâneo e a ocupação das terras obedeceu a um rígido controle dos funcionários do órgão colonizador. O tamanho dos lotes raramente ultrapassou os 25 hectares, e sua demarcação realizou-se por linhas coloniais, em formato longitudinal, com dimensões que variavam entre 100 e 200 metros de largura por 600 a 1.000 metros de comprimento – uma demarcação onde o principal ponto de referência era o curso d’água (rio ou ribeirões). Os homens da família Voltolini deixaram as mulheres e as crianças no barracão de imigrantes e rumaram para tomar posse das terras, levando consigo apenas o indispensável. Os lotes escolhidos por Antonio Voltolini e seus filhos situavam-se nas redondezas onde hoje está localizado o cemitério de Morro da Onça. Antonio Voltolini e familiares escolhem os lotes sem ainda terem uma medida correta da área, cuja medição somente aconteceu em Abril\1880 pelo agrimensor Antonio Carlos Rodrigues de Lima. 
Antonio Voltolini escolhe o lote 23 e reserva o lote 24 ambos na linha Morro da Onça. O lote 23 cuja área soube-se mais tarde que era de 51.653 b², ou seja, 231.405 m², cada b² corresponde a 4,48 m². E que foram pagos com os trabalhos de mão de obra na construção da estrada de Tijucas a Biguaçú, trabalho este realizado pelo jovem João Voltolini. O lote 24 com área de 53.719 b² ou seja 240.661 m², lotes medidos em Abril\1880. Segundo o relato feito pelo agrimensor às autoridades da colônia, “o lote 23 tinha casa, plantações, porém suas terras são em geral péssimas.” O lote 24 segundo o agrimensor, tinha casa, plantações e as terras são férteis. Acreditamos que o agrimensor ao referir-se em terras péssimas ou férteis, baseava-se na topografia. Terreno menos íngrime seria fértil.  Antonio adquiriu dois lotes em virtude de possuir filhos solteiros e também precisaria reservar lotes para os filhos que ainda permaneciam na Itália e que viriam mais tarde.
Ana Voltolini, seu esposo Giuseppe Battisti e filhos ao chegarem em 1879 ocuparam o lote 24 que estava de posse de Antonio Voltolini. Este lote mais tarde, em Jan\1890 foi arrematado ao preço de 277$000 Réis por Antonio Battisti. 
Luigi Voltolini, sua esposa e filhos, ocuparam o lote 25 na linha Morro da Onça, cujo terreno media 62,94 b² ou 281.997 m² conforme medição realizada em Abril\1880 pelo então agrimensor, Antonio Carlos. Comentário feito pelo agrimensor às autoridades da Colônia “O lote tem casa, plantações, mas suas terras são de pouca fertilidade”. O lote custou 407$944 Reis, ou 407 contos e 944 Reis, os quais foram pagos com a mão de obra nos serviços de construção da estrada de Tijucas à Biguaçu, região de Florianópolis, inaugurada em 1906. Luigi assim distribuiu os pagamentos: foram pagos 15$318 Reis dia 28\12\1897, 202$645 Reis dia 08\02\1905 e o restante, 189$981 Reis dia 18\12\1906. Estes valores foram descontados de Luigi por conta de trabalhos de mão de obra na construção da estrada. O lote 25 extremava com o lote 26 de seu cunhado Michele Petris, com o lote 27 de Giorgio Bart, fundos com terras devolutas e numa lateral com o lote 23 de seu pai Antonio Voltolini. 
Maddalena Voltolini e seu esposo Michele Pétris, adquirem o lote 26, Linha Morro da Onça, com área de 53,57 b² ou 240.000 m², conforme medição feita em Abril\1880 pelo agrimensor, Antonio Carlos. Segundo relato feito pelo agrimensor às autoridades da Colônia, “o lote tinha casa, plantações, mas era um péssimo lote”.
Giudita Voltolini permanece no lote dos pais. Adquire seu lote somente em 09\10\ 1896 lote 26 Linha Morro da Onça medindo 63.000 m².
Giovanna Voltolini e José Sborz, futuro esposo , adquiriram o lote 16, linha Morro da Onça com área de 47,098 b² ou 211.000 m² ao preço de 2 Réis o m² totalizando 422$000,  valor que só liquidou dia 27\02\1905 com os serviços de mão de obra na construção da estrada ligando Tijucas a Biguaçú.
PrósperoVoltolini adquire os lotes 15 e 17 contendo 182 b²,linha Bezenello, o que corresponde hoje a rua principal de Nova Trento. Estes lotes, Próspero os repassou à Miguel Joaquim de Oliveira em meados de 1884 conforme consta de recibos de pagamento dos ditos lotes na Coletoria da Vila de Nova Trento datado de 02\06\1896.
 Patrizio Voltolini, sua esposa e a filha Maria, instalaram-se ilegalmente no lote 20 linha Bezenello, terreno medindo 28,42 b² ou  127.345 m² e que mais tarde, em 07\04\1897, o lote foi regularizado pela Colônia e dividido em oito partes assim distribuídas: Lucas Boiteux ficou com 78.320 m², Angelo Cipriani com 6.000 m², João Venturini com 16.500 m², Victor Pedaros com 11.800 m², Ana Salai com 1.150 m², Rovere com 3.113 m², Antonio Tolomeotti (genro de Patricio) com 9.147 m² e Catarina Voltolini (esposa de Patricio) com 1.315 m². Entendendo as autoridades da Colônia que os terrenos eram pequenos e em área colonial, arbitrou o preço de 4 reis o m² para os lotes mais pertos da sede, e 1,8 reis o m² para os mais distantes. O lote de Patricio era bem próximo do centro, o que corresponde hoje às proximidades do terreno de seu bisneto Josemir Voltolini (Zecão), portanto coube pagar a quantia de 4 reis o m² totalizando 5$260 reis. Um ano mais tarde, Patricio adquiriu terras na localidade de Pinheiral Grande, também no Município de Nova Trento, terreno contendo 600.000 m² ou 60 Hectares  que foram pagas em 29\08\1898 a quantia de 540$000 Reis. Pelo fato de Patrizio ter adquirido pouca terra quando da chegada a Colônia, por fazer parte da elite política da Colônia, por ter adquirido as terras no Pinheiral Grande, valor este que não era pouco para a época e também por seus filhos não terem usufruído das terras no Pinheiral Grande para fins agrícolas, pelo contrário, seguiram outras profissões, tais como; Pedreiros, carpinteiros e até ferreiros, acreditamos que Patrizio também não era agricultor. Talvez fosse ferreiro.
Carlo Antonio Voltolini e família ocuparam o lote 10, linha Baixo Salto, provavelmente influenciados pela família de sua esposa que ali fixaram residência. Conforme medição efetuada em Abril\1880 pelo agrimensor Antonio Carlos , o lote 10 media 58,928 b² ou 264.000 m² e foi pago em 10\03\1890. Mais tarde adquiriu o lote 4 com área de 264.000 m² e pago dia 30\06\1896 com a mão de obra na construção da estrada que liga o Município de Biguaçú à Tijucas. Já em 31\10\1896, Carlos, adquire os lotes 2 medindo 264.000 m² e o lote 3 medindo 221.386 m² pagos também com os serviços na estrada de Biguaçú à Tijucas. Apesar do planejamento cuidadoso e da burocracia da colonização (presentes através da diretoria da Colônia até 1881 e dos agentes de diferentes órgãos estaduais e federais que a sucederam), não houve uma ocupação organizada das terras (demarcadas ou não). Ao contrário, a documentação correspondente à fase final dos assentamentos, após a emancipação da Colônia, revela, sobretudo, uma intensa mobilidade e a presença constante de intrusos ou ilegais (posseiros) sendo a maioria deles imigrantes. Eram considerados “intrusos ou ilegais” aqueles imigrantes ou não que habitavam um lote e permaneciam por anos sem a devida medição pelos agrimensores. Assim que descobertos, a medição era realizada e o intruso ou ilegal tinha um prazo de dois meses para a devida regularização. Um caso típico de “ilegal” foi o lote de Patricio Voltolini regularizado pela Colônia em 07\04\1897. Os lotes, na maioria dos casos foram pagos anos mais tarde com os serviços de mão de obra na construção de estradas e outros serviços públicos, pois a agricultura do início da colonização era quase em sua totalidade de subsistência.  

segunda-feira, 10 de setembro de 2012


Do porto de Itajaí a atual Nova Trento:

Nova Trento antes de sua criação pertencia a Colônia Brusque,  cuja fundação se deu em 1859 conforme GROSSELLI (1987 p.288) “(...) seu surgimento ocorrido juridicamente  com o aviso imperial de 18\11\1859 e efetivamente com a entrada dos primeiros imigrantes alemães em 1860 (...).” Quando os primeiros alemães chegaram na colônia Brusque, a zona era completamente coberta pela floresta. Tudo estava por fazer... estradas, pontes,casas, igrejas...Os  italianos começaram a chegar 15 anos mais tarde (1875). A ligação entre o porto de Itajaí e a Colônia que era feito por via pluvial, através de canoas ou balsas, passou a partir de 1875 a ser feita através de carro de boi, carroças ou mesmo a cavalo. Segundo GROSSELLI (1987 p.293) “Em 1869-70 foi iniciada a construção da estrada que teria ligado Brusque ao porto de Itajaí. Foi terminada em 1875, atraso a ser imputado à parcimônia do governo (...)” Antes de chamar-se Nova Trento, a localidade era conhecida como Alferes. Alferes é o nome do ribeirão que corta a cidade. Walter Fernando Piazza (1950 “Nova Trento” p. 21) “Em 1875 era, finalmente creado o districto colonial de Nova Trento. E em Junho desse mesmo ano, no recém-creado  districto colonial foram colocadas as primeiras vinte famílias originárias da Valsugana, no alto vale do Brenta, no trentino, e de Monza, província de Milão, que foram encaminhadas pelo porto de Itajahy e daí a Brusque e se estabeleceram a 16 quilômetros da atual cidade de Nova Trento.(localidade hoje conhecida por Claraiba). Da linha Pomerânia (dentro do atual município de Brusque) até a linha Tirol foi aberta uma picada e nos lotes marginais foram se estabelecendo: José Martinelli, Josue Fontanelli, Paulo Dalsasso, Oswaldo Montibeller, Domingos Casagrande, Batista Scalvin, Jose Michel, Batista Eccel, Felice Postai, Edoardo Dalmano, João Montibeller, Andre Valcanaia, Eduardo Montibeller, José Felizetti, Domingos Bernardi, Antonio Bottele e suas respectivas famílias”. Em primeiro de Janeiro\1876, os colonos já estabelecidos em seus lotes, auxiliavam a abertura das estradas em demanda das terras marginais ao Rio do Braço e seus afluentes. Antonio Voltolini, familiares e amigos ao chegarem a Itajaí depois de merecido descanso, tinham pela frente 35 quilômetros até Brusque, em estradas carroçáveis ou verdadeiro picadão, que dependendo do tempo tornava-se intransitável. As mulheres, crianças, velhos, pessoas doentes e as bagagens, iam aos carros de boi ou carroças e os homens a pé ou a cavalo. Depois da chegada a Brusque tinham pela frente mais 16 KM por picadas até Nova Trento..  De Brusque a Nova Trento passando pela localidade hoje chamada de Claraiba, a primeira linha que compunha o Distrito era o hoje, Morro da Onça, justamente o local onde Antonio Voltolini e familiares, adquirem seus lotes. A família procurou adquirir os lotes uns próximos dos outros, assim os primeiros trabalhos, derrubada da mata, construção das casas ou choupanas, preparo da terra para o plantio ficariam mais fáceis, provavelmente trabalharam em equipe, uns ajudando outros. Cadorin (1992 p.21) “(...) Logo que chegava, o imigrante ficava instalado em galpões construídos para este fim, eram também chamados de barracões. Ali recebia certa assistência até ser transferido em definitivo para o seu lote. A permanência nos barracões às vezes prolongava-se por semanas e meses, isso acentuava a insegurança e o descontentamento. Dormiam todos sob o mesmo teto, às vezes sem divisórias (...).” Pelas informações que receberam ainda em Borgo Valsugana, a propaganda, as promessas recebidas, estavam certos que se fixariam em terras prontas para o cultivo, conforme lhes haviam assegurado. Que desilusão! A sede (Brusque) não era mais do que um pequeno povoado rodeado por extensa mata fechada, em muitos quilômetros. As terras a serem escolhidas localizavam-se, portanto, no interior da mata. Mesmo assim, não se deixaram abater. Não haveria mais volta! Era preciso continuar a busca do sonho acalentado. De acordo com GROSSELLI (1987 p.358) “Os únicos sinais da presença de homens brancos que os trentinos encontraram naquelas florestas foram no Distrito colonial de Nova Trento: algumas laranjeiras vencidas pelas plantas parasitas e os restos de uma serraria que alguns norte-americanos tinham abandonado 40 anos antes. Mas tudo tinha voltado ao estado selvagem (...).” Esta serraria abandonada havia sido montada por um inglês de nome Christovão Bonsfild em 1835 e estava localizada onde hoje é o centro de Nova Trento.
O desengano e as incertezas do momento que apavoraram Antonio Voltolini, familiares, parentes e muitos conhecidos, foram substituídos corajosamente pela esperança de que sairiam vitoriosos. Católicos fervorosos... A fé os guiava... Quando a tragédia dos barracões terminava, iniciava a tragédia da floresta.


  A chegada ao porto de Itajaí

Os que se destinavam às Colônias de Blumenau e de Brusque aportavam em Itajaí, onde eram recebidos e alojados em barracões. Segundo (Grosselli - 1987) “A colônia dispunha de três casas de recepção no porto marítimo. Duas eram construídas de madeira e uma de madeira com a frente de tijolos, todas cobertas com telhas. “Dispunham de uma construção para as cozinhas e duas latrinas cobertas de telhas”. Em Itajaí, os imigrantes eram recepcionados  e encaminhados aos tradicionais galpões, localizados nas imediações da barra do rio Itajai-Mirin, um afluente do Itajai-Açú, à sua margem direita. Aguardava-os também em muitas ocasiões um intérprete.  Ao chegarem aos barracões de hospedaria, os imigrantes tinham a seguinte visão do lugarejo (Itajaí) segundo relato do Senhor Flores em entrevista concedida no ano de 1905: (Fonte consultada: Prefeitura de Itajaí e Gov. de Santa Catarina). “Quando veio morar no povoado, nos terrenos que é o atual perímetro urbano que esta  cidade abrange e que, como sabem atinge à dois quilômetros, a contar da Igreja Matriz, para todos os lados, exceto para o rio que fica a muito pequena distância, contavam-se umas cinqüenta casas, entrando neste número, pequenos ranchos miseráveis que, além de serem cobertos por palha, compunham-se de um só compartimento com paredes feitas apenas de ripas fincadas junto as outras [...] Por entre as casas, algumas eram rodeadas de algodoeiras (fiava-se algodão e tecia-se um pano forte e muito apreciado que se chamava riscado da terra) viam-se extensos brejos, cuja vegetação alterosa e inextricável, em certos pontos, pareciam nunca ter sido drenados completamente; vários caminhos e trilhos tortuosos em inúmeras direções; meia dúzia de engenhos de fazer farinha de mandioca; grupos de cafezeiros, laranjeiras e bananais; roças de mandioca, feijão e milho, mais que tudo capoeiras de todas as alturas. “As roças e mesmo muitos quintais das casas não tinham cercas: preferia-se criar o gado vacum e cavalar à corda ou longe das plantações a solta.”



O Embarque e a Viagem ao Brasil


Conforme consta do Stato di Famiglia (registro de família) originaria da Parrocchia Nativitá di Maria, da Comune de Borgo Valsugana, a família de Antonio Voltolini emigrou dia 26\12\1875 ao Brasil. Fazia parte da comitiva, Antonio Voltolini com 59 anos e sua esposa Margherita Marchi com 57 anos e seus filhos: Maddalena com 32 anos e grávida do terceiro filho, acompanhada de seu  esposo Michele Petris com 37 anos e os filhos Luiz com 5 anos e José com 2 anos; Patrizio com 29 anos, sua esposa Catherine Paolatti com 26 anos, grávida e a filha Maria com 1 ano, pois o primeiro filho, Clemente havia falecido 2 anos antes aos onze dias de vida; Carlos com 27 anos, sua esposa Maria Celeste Cadore com 25 anos e o filho Agostino com 6 meses; Próspero com 23 anos e sua esposa Thereza Cadore (?), cujo casamento foi na véspera da viagem dia 23\12\1875; Giudita com 20 anos e seu noivo Adamo Conci (?), cujo casamento se deu já em terras de Nova Trento dia 25\09\1876; Giovanni com 18 anos e Giovanna com 14 anos, ambos solteiros. Junto da família de Antonio, veio também muitos parentes das noras e dos genros.  O filho Luigi com 25 anos e Anna, filha mais velha, com 34 anos, seu esposo Giuseppe Battisti (?) e os filhos Luiz com 5 anos, Carlos com 3 anos e Maria com 1 ano, viriam mais tarde, pois ainda não haviam decidido emigrar e Luigi estava noivo e o casamento marcado para o mês de Fevereiro com Margherita Moratelli, cuja idade era de 25 anos. A cerimônia se realizou no dia 29\02\1876 na Comune de Borgo Valsugana. Os livros consultados relatam que a partida das localidades, costumeiramente, fazia-se em grupos. As comitivas que vinham dos vales, por diversos meios de transporte, carros de boi, carroças ou a pé, encontravam-se nas estações ferroviárias de Trento ou de Rovereto. A visão de camponeses carregados de bagagens, uns alegres, outros tristes, dirigindo-se à tão sonhada “Mérica”, era um espetáculo deveras comovente! A estação  ferroviária estava lotada de emigrantes, carregados de bagagens e lembranças. Alguns levavam garrafas de vinho, outros, sementes para plantar na nova terra, outros ainda portavam utensílios de cozinha e ferramentas.  VICENZI (1985 p.91-92) cita o relato da Professora Maria de Lourdes Rafaelli Scoz sobre a vinda de seu avô Giovanni Batista Rafaelli, seu tio Alessandro Rafaelli e também outros imigrantes de Rio dos Cedros, para que possamos ter um pouco mais de detalhes sobre aquela aventura de fazer a América e que retrata o que deveria ter sido a viagem de Antonio Voltolini e familiares, pois, como, a família Rafaelli, os membros da família Voltolini também saíram da região de Trento. “Partiram de Trento num trem, que atravessou os Alpes por um túnel “muito grande”, a caminho do porto de Marselha na França (...). Esse túnel que eles se referiam, é certamente o “Moncenisio” do monte Cenis da cordilheira dos Alpes, com 3.538 metros de altura, chamado também Frejus tem 13.038 metros de comprimento e comunica Bardonecchia italiana com Modane francesa a 1000 metros de altitude, inalgurado em 1871, sendo considerado um dos maiores túneis do mundo. (...) Outro episódio bastante impressionante que lhes ficou gravado para sempre em seus corações, foi a chegada à Marselha, quando viram o navio que os devia transportar para o Brasil através do Oceano Atlântico. O pânico aponderou-se de quase toda aquela gente. Momentos de dúvidas e de apreensão ameaçavam a coragem de prosseguir viagem. Tomada de comoção irresistível e contagiosa não pôde resistir as lágrimas. As mulheres atiravam-se nos braços dos seus maridos e abraçavam seus filhos desesperadamente entre prantos e lamentações. “cosa abbiamo fatto, cari da Dio... Ritorniamo in dietro, ritorniniamo in dietro...” Voltemos para traz, voltemos para nossa terra... Aquelas famílias viram pela primeira vez, o mar Mediterrâneo do qual tanto ouviram falar, mas que nunca teriam imaginado fosse tão extraordinário assim. A imensidão das águas atemorizava aqueles passageiros indecisos. Morremos todos, diziam, o mar será nossa sepultura. Mas os dardos estavam lançados. A sorte decidida. Era preciso partir. A nova Pátria os esperava. Sentiam abandonar a sua. O futuro já estava planejado, por isso encorajando-se mutuamente uns nos outros e cheios de esperança, subiram ao navio para o embarque na certeza que Deus estava com eles. “Andiamo, coraggio compagni” A hora da partida do navio do porto de Marselha, abanavam suas mãos para a terra querida da Europa, que nunca mais haveriam de tornar a vê-la”. Testemunhas participativas do comovente espetáculo e, na iminência de uma partida sem retorno, Antonio Voltolini, familiares e seus companheiros de viagem, sentem na pele, o medo do desconhecido. A narrativa dos Rafaelli vai de encontro com o que diz Grosselli (1987) “A vastidão do mar a separá-los da sua querida pátria, a busca aventureira do desconhecido repleto de incertezas e perigos com os quais poderiam defrontar-se na terra distante, eram aplacadas e amenizadas pela confiança que depositavam naqueles que os chamavam a construir as riquezas de um país novo e pouco conhecido.” As promessas eram confortadoras e a coragem não lhes faltava! Dio Santo!...Valeria a pena encará-las e vivenciá-las, não importando as dimensões e o tipo de dificuldades que surgissem. Venceriam! Acredita-se que esta teria sido a rota seguida pela Organização Caetano Pinto, uma vez que a Organização estava instalada em Marselha e  os portos mais seguros para embarque de emigrantes eram os franceses, por fazerem menos exigências e por facilitarem o embarque. Especialmente, em 1875 e 1876, as partidas para o Brasil se fizeram pelos portos de Marselha e Le Havre, pois nesses portos a Organização Caetano Pinto contava com o apoio das autoridades brasileiras em Marselha, entre elas o vice-cônsul Da Costa Saraiva. “(...) Na manha do dia seguinte, a chegada ao porto. Formavam-se grupos de pessoas com afinidade de origem, dialeto ou então parentesco. Uma sirene estridente quebra o torpor da manhã. Era a hora da apresentação dos documentos para o embarque. As pessoas se aglomeram, muitos eram tomados pelo pânico e relutavam em embarcar. Começa o embarque, eram muitos os emigrantes. Haviam muitas dificuldades com as autoridades francesas, pois, não falavam o italiano e precisam da ajuda dos agentes. Era grande o risco de epidemias, principalmente a varíola, que vitimava quase sempre, velhos e crianças. Havia também o antigo temor das tempestades em alto mar. Depois de algumas horas, estavam todos a bordo, tragados pelo gigante de aço. A maioria Trentinos, mas havia também, Vênetos e Lombardos. Os alojamentos não eram adequados e suficientes. A passagem de terceira classe não poderia prover-lhes melhor sorte. Enfim, todos se acomodavam nos beliches, alguns colocam os colchões no chão, amontoam malas e sacolas em qualquer local disponível. A noite deveriam permanecer  separados por sexo; homens de um lado, mulheres, crianças e bebes de outro. Aos poucos o navio vai deixando o cais do porto, no Canal da Mancha, em direção ao Atlântico Norte, agora só se avista, céu e mar. Passados alguns dias, o Capitão avisa que já estão próximo a Ilha da Madeira, já nas costas da Àfrica. A água existente é basicamente para beber. A comida consiste basicamente de uma sopa rala de batatas. Fazia-se acompanhar, um naco de queijo curado que haviam trazido na bagagem. Pela manhã um café muito fraco. Diminuiu o forte cheiro de vômito dos primeiros dias, com a adaptação ao balanço do navio. Os dias são longos; chegam noticias de óbitos, outras notícias de pessoas adoecidas, crianças e velhos que padecem. A religiosidade os fortalece, pois são famílias essencialmente católicas e, ao cair da tarde, participam de forma compenetrada e intensa, das orações e cânticos. VICENZI (1985 p.120) “Já em viagem, através do Oceano Atlântico, devido a enfermidades diversas, alguns morriam. Seus cadáveres eram jogados então ao mar, mas como se fora um verdadeiro sepultamento. “Fazia-se velório e acompanhava-se o morto com orações e cantos dirigidos por um leigo capaz de fazê-lo, até que as águas envolvessem o corpo”. “Os dias continuam muito compridos e as noites intermináveis. “Finalmente em um entardecer, vem o aviso da cabine de comando: No dia seguinte deveriam chegar ao Rio de Janeiro ...A travessia do Atlântico demorou, aproximadamente, 70 dias e, só Deus sabe, quantos imprevistos, obstáculos e sobressaltos viveram neste interstício. Confinados em exíguos espaços na terceira classe do navio, eram presas indefesas de muitas doenças. Ali residia um feroz inimigo e, por isso, quando lhes permitiam, passavam horas e horas no convés. Uns matavam o tempo contemplando a imensidão do oceano, imaginando o perigo que o mesmo representaria durante uma tempestade. Alguns se distraíam com um jogo qualquer. Outros, em silêncio consigo mesmo, elaboravam projetos para o futuro que os aguardava. Muitos deles, como que para espantar a tristeza e a angústia que a todos atormentava,cantavam e dançavam alegres ao som da gaita, do violino e da clarineta, trazidos na bagagem. Por fim, avista-se o Rio de Janeiro! Descem do navio para cumprir as formalidades de ingresso no país. Localizar a bagagem foi o primeiro teste de paciência e de coragem em terra, diante do tumulto que se formara durante a busca da mesma. Claricia Otto,  Doutora em História e professora no Centro de Ciências da Educação na UFSC, da sua pesquisa ( “Entre mortos e feridos, loucos e perdidos” Curitiba, 2003 p.35) retiramos: “A coragem necessária para a partida precisou ser redobrada diante das amarguras e desilusões sentidas na travessia do Atlântico. Confinados nos navios, tiveram de sobreviver sem condições de higiene, separados de pais, de filhos, de irmãos e de parentes. Juntamente com a separação física, havia a frustração, a nostalgia e o medo da morte a qualquer instante. O Cônsul de Porto Alegre, Campans Di Brichanteau Edoardo, relata o cenário que presenciou na chegada de uma das levas de imigrantes: “Assistimos o desembarque de um pobre homem, pai de 5 filhos pequenos, que descia do navio, empurrando à frente os filhos que choravam e levando nos braços, o cadáver da esposa que morrera há poucas horas. Deposto o cadáver, aos prantos, subiu novamente a escada para voltar logo depois, trazendo nos braços mais um filhinho, também morto. Os imigrantes que sobreviveram guardaram na memória, as feridas da tensão e do medo vividos ao longo da travessia e a dor de terem visto os corpos das vítimas de alguma febre epidêmica, serem lançados ao mar. Outras frustrações somam-se a essas, dentre as quais, as más condições encontradas nos barracões de recebimento.”  São alojados em hospedarias, onde permanecem alguns dias para definir o local em que se fixariam no sul do país. Essas providências, aparentemente desnecessárias, na verdade eram importantes, pois nem todos haviam ainda feito sua opção em definitivo. Alguns preferiam o Rio Grande do Sul, outros o Paraná e outros Santa Catarina. Havia, também, aqueles que mudavam sua escolha. Não foi o caso dos nossos ancestrais que, ao embarcarem na Itália, destinavam-se à Colônia “Itajahy Príncipe Dom Pedro”, em Santa Catarina. Concluídos os trâmites legais e ultimados os preparativos, os imigrantes eram encaminhados ao navio que os transportaria às províncias escolhidas no sul.  Antonio Voltolini e familiares, provavelmente chegaram ao porto do Desterro no navio Vauban. Pela data em que iniciaram a viagem, 26\12\1875 até ao porto de embarque, provavelmente passaram-se uns três a quatro dias, com a data de chegada ao porto de Desterro  09\03\1876 data em que jornais do Desterro noticiavam a chegada de um navio de imigrantes italianos, passaram-se setenta e três dias. “Dia 09\03\1876, quinta feira, às 15 horas, ancorava no porto do Desterro, o navio francês “Vauban” conduzindo 416 imigrantes italianos para aquela colônia; procediam de Marselha e foram localizados em terras de Nova Trento. Transportados para o “Inhaúma” da Marinha Brasileira, e conduzidos até o porto de Itajaí, daí seguiram para os lotes que lhe estavam reservados.”  (Enciclopédia dos Municípios Brasileiros Vol. XXXII Rio de Janeiro 1959). Nossos destemidos e corajosos ancestrais, provavelmente vieram direto ao Porto de Desterro (antigo nome da cidade de Florianópolis) não desembarcando no Porto do Rio de Janeiro, pois nada encontramos nas listas de chegada naquele porto. PIAZZA (1994 3ª Ed p.201) refere-se à duas chegadas de imigrantes italianos no ano de 1876,em Nova Trento, ano em que a família de Antonio Voltolini chegou... “A 09 de Março de 1876, ancorava no porto do Desterro o navio francês “Vauban”, procedente de Marselha, com 416 imigrantes trentinos que se destinavam à colônia “Itajai-Brusque”. “A 14 de Setembro do mesmo ano de 1876, pelo vapor “Werneck”, chegavam 700 italianos de diversas procedências”. Sendo que, Anna Petris, filha de Madalena Voltolini e de Micheli Petris nascera em 03\04\1876 e batizada dia 30\05\1876 em Nova Trento, podemos afirmar que aportaram em Santa Catarina pelo porto do Desterro em 09\03\1876 às 15:00 horas, numa quinta feira no navio “Vauban”, e  Foram transportados até o porto de Itajai pelo “Inhaúma” da Marinha Brasileira.   


                                 A decisão de emigrar

Antonio Voltolini sabendo que a expectativa de vida na época era menor que 50 anos, e que ele estava próximo de completar 60 anos de idade, ela com 57 surge a pergunta: O que convenceu este casal de camponeses e toda a família a abandonarem parentes e amigos e partirem para uma terra distante, que eles ainda não conheciam, e de onde certamente não retornariam? Quando a família decidiu que a emigração era naquele momento a solução mais viável, diante do quadro em que se encontravam, o casal Antonio Voltolini e Margherita Marchi  tinham nove filhos e oito netos: Seis filhos já eram casados; Anna casada com Giusepe Battisti tinha quatro filhos; Maria Maddalena casada com Michele Petris tinha dois filhos e estava grávida; Patrizio casado com Catherina Paolati tinha uma filha e a esposa estava grávida novamente; Carlos casado com Maria Celeste Cadore tinha um filho; Próspero estava noivo de Thereza Cadore; Luigi era noivo de Margherita Moratelli; Giudita era noiva de Adamo Conci; Giovanni e Giovanna eram solteiros.
 A revolução econômica que se processava em toda a Itália, trouxe em seu bojo expressivas conseqüências sociais, principalmente, para a população agrícola do norte. Na Provincia de Trento, Lombardia e Vêneto, onde a pequena propriedade predominava, não havia mais condições de proporcionar sustento, pela decrescente produtividade e pelos crescentes tributos que as onerava. O trabalho meeiro com os grandes latifúndios era opressivo e o salário por eventuais trabalhos, extremamente baixo. Dessa forma o ambiente tornava-se cada vez mais hostil à sobrevivência, pobreza extrema, fome, pouco trabalho, além do serviço militar que ceifava os filhos adultos por três anos podendo chegar a sete. Complementando o quadro de desesperança dos camponeses, surge a influência dominadora estrangeira, acenando a esses desafortunados italianos um meio eficaz para garantir-lhes subsistência - o abandono da pátria! É, justamente, neste angustiante contexto que os filhos de Antonio Voltolini e Margherita Marchi passaram a delinear e avaliar possibilidade de por em prática um novo projeto de vida - emigrar!A maioria adulta, alguns já casados, sadios, no vigor da idade e desejosos de progredir, a emigração se enquadrava perfeitamente ao espírito inquieto de quem, como eles, almejavam vencer na vida. Resolveram levar ao conhecimento de Antonio, a idéia que solucionaria os problemas que enfrentavam – emigrar. Antonio viu com bons olhos a sugestão, pois em toda a sua vida, e já com a idade avançada para a época, pois já contabilizava 59 anos e alguns meses, nada havia conseguido, mas, alertava, ser de toda conveniência, conseguir um maior número de adeptos, visando facilitar a convivência na nova pátria. Assim, os já casados; Anna, Maria Maddalena, Jacomo Patrizio, Carlo Antonio, e os noivos; Luigi Antonio, Próspero e Giudita, levaram o projeto ao conhecimento dos pais de suas amadas (os). Debateram o assunto até a exaustão e, após muita conversa, acabaram tomando a decisão. Juntos emigrariam. A escolha recaiu sobre o Brasil, tendo em vista que a propaganda desencadeada no norte da Itália apontava-o como um país maravilhoso para se viver. “A propaganda feita pelos agentes ou pelas companhias de imigração apresentava a América como a “terra prometida” aos camponeses. A quantidade de terras disponíveis, as facilidades oferecidas como a passagem gratuita, ajuda de custo nos primeiros 10 dias, casa e sementes, incentivaram muitos imigrantes a rumar para o Brasil”.
A partir daí e, com a concordância de todos, deram andamento às tratativas para efetivação do projeto emigratório. O primeiro passo foi entrar em contato com a Organização Caetano Pinto, aquela mesma da propaganda que incentivava os camponeses a emigrarem.
Procurou-se saber detalhes quanto à documentação necessária, as condições de embarque, a época mais recomendável para a viagem e que bagagem podia ser levada. Eram informações importantes para o novo projeto de vida. O segundo passo foi realizar o casamento de Próspero e Thereza Cadore, pois já estavam noivos há algum tempo e casados era mais fácil
adquirir terras na nova Pátria. A cerimônia deu-se em Borgo Valsugana em 23 de dezembro de 1875, justamente alguns dias antes do embarque.
Longas conversas noturnas tornaram-se constantes. Sonhos arquitetados no silêncio da noite e no aconchego materializavam-se em ações no dia seguinte. Antecedendo a viagem, quantas idéias povoaram a mente destes nossos heróis destemidos!...
Quantas dúvidas e indagações!... Por certo, muitas ficaram sem resposta. Mas, apesar de tudo, era preciso ir em frente. Havia muito a Resolver!... E, os preparativos, como ordená-los? Maddona mia! ... E, no vai-vem dos afazeres, não faltaram lágrimas, umas pelo abandono da
pátria, outras por medo do desconhecido. Cada qual cuidou com muito carinho e zelo, selecionando tudo o que desejava e achava necessário levar à nova morada, onde não poderiam faltar os quadros da Santa Ceia e a Sagrada Família a serem colocadas na parede da sala, as imagens dos santos para o oratório, as estampas do Coração de Jesus e do Coração de Maria, e o livro de orações, sementes para o plantio, entre outros. Tudo é colocado em um baú de viagem, malas ou sacos junto com as roupas de vestir, os cobertores e as toalhas de banho e de mesa. Nada deveria deixar de ser incluído na bagagem. Os bens que possivelmente haviam de ter; animais, carroças, entre outros, deveriam ser vendidos, pois precisariam custear o deslocamento de Borgo Valsugana até o Porto de embarque, e por outro lado havia necessidade de ter-se alguma reserva financeira para a viagem e iniciar a vida nova. Com os corações apertados e as lágrimas a rolarem pelas faces por abandonarem sua querida Comune, parentes e amigos que ficavam, iniciaram a aventura indo ao encontro de um mundo melhor que lhes proporcionasse condições de criar os muitos filhos que esperavam trazer ao mundo.






Possíveis causas da emigração de Antonio Voltolini e família:

A historiadora Maria Angélica Marochi, em seu livro: Os Europeus em São José dos Pinhais, pág. 19, foi muito feliz na utilização desta frase “Europa Expulsora”, pois como veremos a seguir, não foi um fato isolado que levou Antonio Voltolini, família e milhares de europeus a imigrar e sim uma sucessão de acontecimentos que culminaram com a vinda de mais de 28 milhões de europeus para as terras americanas.  A agricultura que representava o esteio econômico vivia uma enorme crise e, em decorrência, os camponeses sofriam toda a sorte de privações. A unificação da Itália, em 1861, propiciou agravamento das dificuldades pelas quais passavam às diversas repúblicas que compunham a Itália de então, dificuldades essas de ordem econômica, política, social e religiosa, tanto, nacionais, quanto internacionais.
 Cadorin (1992 p.15) “As modificações na política fundiária, instituídas por ocasião da unificação italiana em 1861, fez com que milhares de agricultores tivessem suas terras confiscadas pelo governo”. A Itália vivia atormentada por males terríveis, com terras esgotadas e improdutivas, com pragas que devastavam as culturas agrícolas, sobretudo a sericicultura ou cultura do bicho da seda, além das moléstias que grassavam, como a malária, a cólera, a pelagra, as doenças pulmonares dos mineiros e tantas outras. A Itália era um país pobre, doente, faminto e atrasado.
 Segundo Paterno (2005 p.28) “Não obstante, a agricultura ter ocupado 70% da população ativa, e a Itália ter chegado a possuir a mais vasta área de terra em plantações de cereais de toda a Europa, viu-se obrigada a comprar grandes quantidades de víveres, como: trigo, carne, açúcar e banha, dos Estados Unidos e da própria Rússia. Até os produtos básicos, como, milho, arroz e óleo começaram a escassear. É que, enquanto outros países se preocuparam a tempo em modernizar sua agricultura, a Itália continuava utilizando instrumentos agrícolas primitivos, como por exemplo; o arado em madeira e, o plantio e a própria colheita inteiramente manuais.” A falta de alternativas de trabalho e de pólos de atração na região, o esgotamento de alguns recursos minerais, o estabelecimento de cotas para os abates florestais, as modificações territoriais e dos transportes, acabaram por tirar da população as poucas fontes de renda que ainda restavam.
Nos meados do século XIX, mais propriamente no final da década de 1850 com o fim das revoluções burguesas, o continente europeu, principalmente a Europa Central, deixava de lado os resquícios do feudalismo, do espírito religioso fomentado pelo catolicismo para dar espaço ao sistema capitalista. O camponês, até então acostumado com um regime de vida que perdurou séculos, estava diante de um período de grandes transformações sociais e políticas. As mudanças foram tantas que os camponeses que viviam em pequenas comunidades e dependiam da migração sazonal, em épocas de inverno, para obter o sustento da família não conseguiam mais este tipo de trabalho.
Os reflexos destas mudanças foram ainda maiores. A revolução industrial trouxe novos medicamentos e vacinas que diminuíram a mortalidade infantil, aumentando consideravelmente a população em toda a Europa. Os camponeses já não conseguiam mais competir com os grandes latifundiários e sobreviver com as altas taxas de impostos.
 Em 1874 o Imperador Dom Pedro II assinara um contrato com Caetano Pinto, visando transferir emigrantes europeus para o Brasil, porque temia pela sorte do sul do Brasil, despovoado e, por isso mesmo, constituindo-se em presa fácil à cobiça dos países limítrofes. Os temores de Dom Pedro II se prendiam às guerras travadas com a Argentina e o Uruguai em 1849 e, contra o Uruguai e o Paraguai em 1865. Suas preocupações portanto, fundamentavam-se em observações muito recentes. Povoar o sul do país era uma medida política a ser tomada com urgência. Foi nesse clima propício à emigração que apareceu a propaganda desencadeada pela empresa de Joaquim Caetano Pinto Júnior, tecendo loas à terra prometida, o Brasil, e incentivando insistentemente, os camponeses a emigrarem.
 Roselys Izabel Correa Santos (1999, 2ª edição) analisa com detalhes a influência da imprensa no processo emigratório. É dela a afirmação: “diante, portanto, de tão bruta conjuntura, que não lhes poupava o direito a subsistência, qualquer aceno a estes segmentos da população, que lhes projetasse um mundo pouco menos cruel, era representação de um paraíso e, porque não, o mítico Paese di Cuccagna”. (País das Maravilhas).  Citando Franzina, Roselys (1999 p.114) “Todos os autores italianos que tratam do tema emigração são unânimes em colocar a miséria do campo como a condição precípua para o fenômeno, o que é óbvio. Como expõe Emilio Franzina: “De fato, a expressão mais freqüente, com que se designa, a partir dos anos oitenta do século XIX, a causa causorum da emigração dos campos em uma literatura interminável, coincide, ao menos no Vêneto, por mim estudado, com uma só palavra, chata e banal, mas dotada de uma carga semântica até hoje explicitada e indicativa: miséria.”

quinta-feira, 6 de setembro de 2012




BORGO VALSUGANA


      
                                          Cidade vista do Castelo Telvana


Borgo Valsugana é uma bonita cidade situada na região da Valsugana, juntamente com o distrito de Olle é o centro mais importante da Valsugana, localizado no gargalo entre os montes Rochette e Ciolino e dominada pelo “imponente Castelo Telvana”. Foi uma fortaleza Romana importante, para proteger a importante Via Claudia Augusta Altinate que alcançava a cidade de Trento e em seguida ia até Augsburg na Alemanha. O topo do edifício Castel Telvana tem uma pegada de construção que remonta ao tempo dos Romanos. O Rio Brenta atravessa a cidade que surgiu e evoluiu no fundo do vale. Principal centro da Valsugana Oriental, antigamente denominada “Ausugun”.  Graças à sua localização ligando o vale Ádige e Vêneto, a Valsugana efetivamente sempre desempenhou papel importante de passagem e mercantil. Na idade média, Borgo Valsugana era o centro mais importante de toda a área ou região. Por diversos séculos, a Valsugana foi palco de muitos acontecimentos terríveis de guerra e invasões, sob o domínio alternado por um grande número de senhores, dentre eles destacam-se; Scola, de Verona (1321 - 1337); Cariari de Pádua (1360 - 1375); Visconti de  Milan (1338 - 1402) e os venezianos (1406 - 1412). Uma imigração Tedesca\alemã interessou-se pela Valsugana início do século XV, quando a jurisdição passou para um Duque Austríaco  no final do domínio Feltrino. A região neste período passou ao domínio de origem alemã que trouxeram seus homens entre eles; artesões, soldados e pessoal de serviço, especialmente nas áreas de Borgo e Telve. Em 1535, a Valsugana participou ativamente na “rustica guerra”. Em 1796 foi ocupada pelo exercito Francês de  Napoleão Bonaparte, cujo testemunho se encontra no centro da vila. De 1805-1810 a Valsugana fez parte do Reino da Baviera e de 1810-1814, ao Reino da Itália e algum tempo depois passou novamente ao Reino da Austria (Imperio Austro-Ungaro). A 06 de julho de 1862 um incêndio de grandes proporções atingiu a cidade de  Borgo Valsugana, onde cinco (5) pessoas perderam a vida e cento e cinqüenta e nove (159) casas foram destruídas. Em 1919 através do tratato de Saint Germain, a Região Trentina na qual Borgo Valsugana está inserida, retornou ao Reino da Italia.
Foi na pequena Comunidade de Borgo Valsugana, nas montanhas Alpinas da Província de Trento, que Próspero Voltolini e Giovanna D’andrea tiveram dez (10) filhos: Pietro Antonio nascido em 10\02\1814, Antonio Giovanni nascido a 18\02\1816, Ana Maria nascida em 02\11\1818, Domênica Tereza nascida a 02\09\1820, Catarina Tereza nascida a 09\02\1822, Lucia Giovanna nascida a 05\01\1824, Tereza Antonia nascida a 29\01\1826, Pietro nascido a 29\05\1828, Giovanni Battista nascido a 08\02\1830 e Próspero Giuseppe nascido a 05\01\1832.  A região Trentina pertencia na época ao Imperio Austro-Úngaro, cuja região foi anexada à Itália depois da primeira guerra mundial, pelo Tratado de Saint Germain em 1919. Filho de pais camponeses, Antonio Giovanni e, mais tarde seus filhos, provavelmente tiveram a infância, juventude e vida adulta, moldada nos princípios de sua comunidade, conforme relata Bortolo Belli, intelectual italiano emigrado em 1888, escrevendo em forma de folhetim no semanário Avanti “la istória di un colono” onde relata o cotidiano de seu personagem, Nani. Reproduzimos partes do texto para que possamos ter uma noção, de como era a vida de nossos antepassados nos meados do século XIX. “As lembranças de Nani aos quatro a cinco anos de idade, eram ligadas à vigilância de alguns perus, trabalho que seu irmão mais jovem herdará, quando ele aos sete ou oito anos passará a “guadagnarsi la polenta” pastoreando as poucas ovelhas da família. Lembra com indignação que grande parte dos frutos da criação de animais em que se ocupava, também era entregue ao dono da terra sob forma de renda ou de homenagem, relatando a situação de profunda  exploração em que viviam.  Nane recorda da alimentação quase reduzida à polenta e como ele e os irmãos pequenos viviam sujos, molambentos e descuidados, já que sua mãe ocupava-se intensamente nos campos ao lado do pai. Adolescente, o protagonista vê ao longe as tropas italianas passarem pela estrada principal, próxima a residência familiar, quando da incorporação de Veneza ao Reino da Itália.  A distância do observador não é apenas geográfica. As tropas passam e a vida do camponês pouco se modifica sob o domínio Austríaco ou Italiano, a não ser para pior.  Nane relembra a pregação religiosa voltada para a solução das questões materiais e defensora do quietismo social camponês, também abraçado pelos professores rurais.    Relembra o poder da água e do ramo de oliva, bentos contra o demônio, as tempestades e as más colheitas. As orações intermináveis em latim, incompreensíveis, o lento avançar das contas do rosário debaixo do alpendre da casa, na boa estação ou no estábulo, no inverno (...) junto a seus familiares. As promessas do Capelão, de paraíso para os que aceitarem a vida de “sofrimento e obediência cega” e o inferno para os que se rebelassem contra ela. Discurso comum aos meio urbanos e rurais no século XIX. Nane retrata ainda a triste sorte dos camponeses arrolados ao serviço militar, que podia chegar até sete anos. Descreve com pertinência a inscrição na lista de leva em obediência ao serviço militar, o sentimento de desgosto dos jovens recrutas obrigados a despirem-se em público para serem examinados sob guarda de carabineiros armados. Relata ainda a descriminação materializada nos privilégios aos recrutas burgueses em detrimento aos recrutas camponeses, que era objeto de toda a sorte de exações. O protagonista relembra o retorno a casa paterna, o casamento, a vida difícil a emigração (...)”. Passados alguns instantes nosso imaginário voltado para o século XIX,  revivendo um pouco do cotidiano de nossos ancestrais, retornamos com Antonio já adulto aos 23 anos de idade pensando em se casar, busca no seio da família Marchi, na Comune de Telve, cidade visinha a Borgo Valsugana, sua companheira, Margherita,  nascida em 30\11\1818. O ato religioso foi celebrado em 1839 na Comune di Telve (era praxe na época o casamento ser realizado na Comune da noiva). Já casados, depois de uma longa e interminável ansiedade, logo depois do natal, chega o presente tão esperado, dia 17\01\1840 nasce o primogênito, Giusepe Antonio, que por problemas de saúde veio a óbito em 30\01\1840 com apenas 13 dias de vida. Aborrecidos com a morte do filho “másculo,” Antonio e Margherita não se deixaram abalar pelo fato, e foram em frente. Aos 19\07\1841 nasce Anna Giovanna, dois anos mais tarde aos 18\07\1843 nasce Maria Maddalena, dois anos e meio depois, à 05\01\1846 nasce Jacomo Patrizio, dois anos e meio depois aos 30\07\1848 nasce Carlos Antonio, dois anos mais, nasce aos 02\10\1850 Luigi Antonio. Pouco tempo depois, Antonio e família, emigram para a Província da Lombardia e montam residência na Comune de Santa Brígida, onde nascem mais dois filhos; Próspero dia 10\12\1852 e Giudita em 16\07\1855. Por volta de 1857, a família de Antonio e Margherita retornam à Borgo Valsugana, Provincia de Trento, onde nasce Giovanni Antonio aos 10\05\1858. Permanecem em Borgo por mais algum tempo. Inicio dos anos de 1860, Antonio e família emigram novamente, agora para a Província do Vêneto, mais precisamente para a Comune de Schiavom, onde em 13\01\1862 nasce Giovanna, a caçula. Poucos anos depois, a família retorna a Borgo Valsugana, Província de Trento, de onde em 26\12\1875 emigram para o Brasil.  As Províncias da Lombardia e do Vêneto pertenciam ao Reino da Itália e a Província de Trento pertencia ao Império Austro-Úngaro.  Antonio e família, num período de pouco mais de 23 anos fizeram três emigrações, passando pelas três Províncias que mais cederam emigrantes italianos e Austríacos, principalmente ao Sul do Brasil. Estas emigrações internas em seu país demonstram, com uma grande percentagem de acerto, que a família de Antonio, não era proprietária de terras, talvez meeiro ou arrendatário. Roselys Izabel Correa dos Santos cita em ( A Terra Prometida p.90-91) ”Grosselli, baseando-se em Leonardi, expõe os tipos de relações de contratos comuns nas propriedades rurais da Região do Trentino, e que não diferem muito das outras regiões italianas do norte: “Arrendamento, contrato misto e pacto coparticipativo eram os mais comuns. Arrendamento e meação eram os mais difundidos e, dadas as condições contratuais em que eram atuados, uma vez mais se transformavam num freio à agricultura da região e vinham em detrimento da produtividade e da qualidade do produto. O contrato de arrendamento durava menos de dez anos... Mais difundido era a meação. O proprietário concedia o solo, as benfeitorias, algumas vezes os animais, e se obrigava a pagar os impostos. O meeiro entrava com o seu trabalho e o da família, os implementos e metade das sementes. A colheita era depois subdividida segundo proporções que variavam pouco em cada tipo de contrato. “Costumeiramente metade da colheita de cereais e frutas, dois terços da colheita de uva e todas as folhas de amoreira eram do proprietário.”